domingo, 17 de outubro de 2021

Artigo: "Nós nem cremos..." - Por Lindoberg Campos


Por vezes é difícil acreditar na percepção de história como eterno retorno do mesmo. No entanto, parece que se criou um portal mágico temporal, a que chamamos Brasília, que sempre nos surpreende com sua capacidade de gerar imagens que parecem ter sido capturadas na longa luneta do tempo. As imagens de blindados da Marinha desfilando no eixo monumental de Brasília para levar um convite – aceitemos o fato de não haver correio institucional – ao Palácio do Planalto reacendeu um debate que parece rondar o cotidiano brasileiro como um fantasma perpétuo. As manchetes dos jornais exploraram fotos de blindados com o congresso ao fundo. O jogo de imagens criou o simbolismo necessário para refletir sobre nossa herança democrática sempre ameaçada. A imagem, contemporânea, acionava um pretérito que era apenas um quadro na parede, mas que ainda dói.

A longa e não menos cambaleante história nacional traz em seu gérmen a marca da exclusão e do jogo de forças que ditam o rumo da política. A própria República nasce sob o símbolo da imposição de vontades e do espírito ditatorial que, de forma intermitente, aflora ao longo do tempo no Brasil. O enxotamento da família imperial é um marco dúbio. Constitui, em tese, um anseio maior de liberdade e de conquista democrática, mas sua execução, marcada pela atuação de um grupo de militares apenas expõe uma deficiência da República enquanto instituição ampla e plural.

Os devaneios de apoiadores contemporâneos da ideia de intervenção militar repousam nessa característica de condução política pautada na força de imposição. Historicamente, no Brasil, quando se deseja mudar o paradigma de condução das políticas públicas o ato seguinte tende a ser uma ruptura institucional. Se se utilizam da liberdade de expressão que ataca esse próprio direito é apenas por uma crença que instituições militares, pela sua longa trajetória de solidificação como ator político na história do sistema republicano, 

Mas essa percepção é tacanha e carente da dinâmica histórica do Brasil. Sendo colônia lusitana, a vinda da família real abafa as manifestações emancipatórias que aos poucos pintavam o Brasil de cores liberais. Não se incentiva, à revelia do que ocorre em outros países sul-americanos, a criação de sistemas de educação e universidades. Pelo contrário, o controle de impressa e formação de corpos militares possuem a real intenção de controlar o território e impedir que vozes dissonantes se estabeleçam e ganhem vulto. Portanto, contemporaneamente, defender intervenção de forças institucionais na condução política, subverte o real significado da democracia como jogos de forças cujo objetivo final seria o bom convívio dos corpos na maior possibilidade de performance de liberdade.

Se o próprio hino da República exprimia em suas letras o desejo de uma liberdade cujas asas se abrem sobre todos, parece que se esqueceu, ou tentou se esconder num negacionismo tacanho, que houvesse problemas crônicos com os quais deveria aprender a lidar de forma democrática. Ao afirmar que “nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre País...”, o hino exibe as marcas de uma fratura social herdade do Império/Colônia que será tratada de forma superficial. Os problemas advindos de Canudos, a política do café-com-leite, o autoritarismo e glorificação da imagem varguista, o golpe de 64 motivado por manifestações de grupos historicamente privilegiados e conservadores e as constantes ameaças, simbólicas ou veladas, contra a jovem democracia (apenas 33 anos) são pistas muito genéricas que nos apontam para um horizonte familiar cuja história se repete transvestida de outro fenômenos. 

Ao ganhar o Brasil de presente de seu pai, Pedro de Alcântara estabiliza a organização das forças armadas para defesa da “unidade” nacional desconsiderando toda insatisfação pronvinciana e conjugando as forças de poderes locais para o estabelecimento de um modelo que pouco ou nada possui de participação popular. A tecnologia e o conhecimento, de alguma forma no Brasil, estiveram em instituições militares pelo caráter histórico de formação. Era óbvio que, com um histórico de participação nos assuntos de defesas nacionais, existisse uma mentalidade no meio militar de responsabilidade pelos rumos da nação. No entanto, parece que ao longo do caminho democrático a própria reflexão sobre o papel de atores políticos se perdeu num voltar-se a si alienante e narcísico. 

Ainda que as forças armadas, ou seus membros, tenham protagonizado ao longo da história momentos de inflexões nos rumos políticos, é preciso compreender que os jogos de força e conhecimento estão distribuídos em outras instituições que foram geradas e maturadas no longo processo de aperfeiçoamento democrático. O problema está quando decide-se assumir o protagonismo desse jogo sem considerar que o sistema republicano requer um justamente esse aperfeiçoamento constante de seus membros e suas instituições. Invalidar a seriedade e função dessas instituições levando o jogo democrático para os limites de sua estabilidade só cumprem uma agenda ditatorial, marcada por uma herança de exclusão e colonização que é benéfica para quem?

Nós nem cremos que contemporaneamente haja simulacros toscos de ditadores em tão nobre país, que negam a própria história desse território, ou mesmo que flertam com momentos históricos ditatoriais. Cremos, diferentemente do hino da República, que a democracia só se fortalece com o reconhecimento das mazelas crônicas e da busca por soluções de forma ampla, aberta e transparente. Se a assertiva de Millôr Fernandes é verdadeira, temos, de fato, um longo passado pela frente. Resta saber se esse passado se repetirá ou se o curso da história, construída cotidiana e coletivamente, dará novos contornos e novas perspectivas. 


Lindoberg Campos é professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e fundador-proprietário da instituição e marca Rodeador Cultural 


 

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