Publicidade


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Náutico e o Capitão do Tri, Carlos Alberto Torres - Por Lucídio José Oliveira

O capitão de 70, foi treinador do Náutico em 1986. Tempo de vacas magras. O time vinha de uma brilhante conquista, o bicampeonato de 83-84, sob o comando de Ênio Andrade, no primeiro ano, e Mário Juliato na sequência. Mas no gramado a equipe bicampeã já não era mais a mesma, ainda que continuasse contando no meio do campo com as presenças de Baiano e Ademir Lobo, os protagonistas das conquistas recentes.

Na defesa, ainda jogavam Alfredo Santos e Edson Gaúcho. Mas os desfalques pesavam. Já não se encontravam nos Aflitos o zagueiro Zé Eduardo, o lateral Cláudio Duarte e, a perda mais significativa, os atacantes Denô, Lima e Neto Surubim. O caixa do clube andava em baixa, a conta do bi ainda estava sendo quitada. E Carlos Alberto, treinador de ponta, vitorioso logo no início de carreira, só topou a parada de vir treinar o Náutico por causa da grande amizade que tinha com o empresário Américo Pereira, o mecenas de plantão do Náutico.

Um irmão de Carlos Alberto trabalhava no escritório da empresa de Américo Pereira em São Paulo. Carlos Alberto tinha sido campeão brasileiro com o Flamengo no ano mesmo de sua estreia como técnico, em 1983, ratificando sua condição de vencedor no ano seguinte, ao levar o outro grande do Rio, o Fluminense, ao título de campeão carioca. Tratava-se de um treinador da elite e sobretudo vitorioso no início da carreira. Além da dupla Fla-Flu, tinha treinado apenas o Corinthians, em São Paulo. Somente uma grande amizade para fazer de Carlos Alberto técnico de um clube com limitações de caixa e sem a visibilidade dos grandes. Tanto que assumiu o comando da nau alvirrubra em condições privilegiadas, com uma agenda e disposições especialíssimas de trabalho. Podia viajar, e viajava toda semana para São Paulo, até para a Europa, para atender compromissos promocionais no mercado alemão com a Adidas.

Era um dos principais garoto-propaganda da empresa de material esportivo, uma das maiores do mundo. Ficou no Náutico apenas cinco meses, de maio a início de outubro, tempo em que o time alvirrubro foi a campo 24 vezes, em 11 jogos do Pernambucano, 10 partidas pelo Campeonato Brasileiro da 1ª Divisão e três amistosos. Em três desses jogos, na reta final do Estadual, Carlos Alberto dirigiu o time a distância, ausente em São Paulo ou tendo viajado para a Alemanha, representado aqui no Recife, à beira do gramado, pelo auxiliar Raul Carlesso, preparador físico, como ele da Seleção de 70, ou por Edson Nogueira, também da comissão técnica alvirrubra. Por tudo que foi dito, um time em baixa e um treinador meio ausente, era óbvio não se esperar bons resultados. E foi o que aconteceu com Carlos Alberto na sua pouco ortodoxa passagem pelo Náutico.

No Estadual, incluindo-se os três jogos substituído por Carlesso ou Edinho, num total de 11 partidas, cinco vitórias, cinco derrotas e um empate. Todos esses jogos valendo pelo 3º turno, vencido pelo Santa Cruz (Santa e Cruz decidiram o título, campeão o Santa Cruz). No Brasileiro, outro tanto, resultado também pífio: em dez jogos, quatro vitórias e seis derrotas, rendimento de pouco mais de 36%. Muito pouco, na conta do chá. De fora da decisão do estadual e eliminado no Brasileirão, ainda bem que as vitórias na competição nacional tinham sido obtidas contra adversários de respeito, entre eles Cruzeiro e Vasco da Gama. Todos as quatro vitórias no nacional em jogos disputados em casa, no Arruda, onde o Náutico mandava seus jogos naquele tempo.

Nenhum resultado positivo como visitante. De todo modo, restou o fato histórico relevante. Uma honra dividida ao meio. Para o Náutico, que conta na lista dos seus treinadores com o ilustre nome do Capitão do Tri. Não é pouca coisa. Para Carlos Alberto, por ter inserido no seu currículo de profissional vitorioso, a condição de ter defendido, como treinador, a bandeira gloriosa da Clube Náutico Capibaribe. Ganharam os dois.

* * * * *

Tive a oportunidade de um breve encontro com Carlos Alberto. Uma honra e uma não menos valiosa satisfação para mim. Foi em Caruaru, no antigo Hotel do Sol, hoje desativado, hotel à beira da BR onde hoje funciona uma escola de ensino superior. Era um domingo, dia 20 de julho daquele ano de 1986. Tinha ido pela manhã com familiares e alguns amigos, ao hotel onde estava o Náutico concentrado para o jogo à tarde no Luiz Lacerda, para desejar boa sorte no jogo de logo mais ao amigo Baiano, a estrela do time.

Fomos gentilmente recebidos por ele, Carlos Alberto, o comandante do grupo. À tarde, vitória do Central, 1x0, jogo disputado debaixo de um toró daqueles. O campo do Central transformado em uma piscina de água e lama. Foi o único jogo que vi do time do Náutico sob o comando do grande capitão. Um time que tinha Ricardo Lopes, Galvão, Alfredo Santos, Edson Gaúcho e Sivaldo; Lourival, Beto Sabino e Baiano; Edvaldo, Moreno e Mané. Quem se lembra dessa linha de ataque? Não dava mesmo para ganhar ou fazer boa campanha.


(A foto do time do Náutico é de 17 de maio de 1986, estádio do Arruda, jogo contra o Sport (0x2). O time, um pouco diferente daquele do jogo em Caruaru: Ricardo Lopes Galvão, Alfredo Santos, Edson Gaúcho e Sivaldo; Lourival, Baiano e Ademir Lobo; Ivanildo, Moreno e Júnior Guimarães; Todos e dados e foto do Náutico tirados dos Cadernos de Carlos Celso e Luciano Guedes Cordeiro).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para acessar postagens mais antigas clique aqui

Para acessar postagens mais antigas clique aqui

6 anos levando a notícia com responsabilidade.

6 anos levando a notícia com responsabilidade.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...